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Siga o coelho e entre na toca, Aqui você vai encontrar textos sobre várias coisas te convidando a refletir. Mas lembre-se, eles foram escritos por alguém e expressam uma opinião, não uma verdade, você pode discordar ou não. * Spoilers estão identificados e ocultos, para ler selecione o trecho.

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terça-feira, 21 de março de 2017

Mas Homofobia Não Existe





Oi, vamos falar sobre homofobia? Ah, mas homofobia não existe, olha só quanta diversidade nos filmes, séries, novelas, já estão enfiando homossexualidade em tudo hoje em dia. É, e foi justamente isso que eu li hoje, que “estão enfiando homossexualidade em tudo” e não precisa de ~mais um personagem gay porque já tinha um casal homossexual, em The Walking Dead no caso~ então vamos falar sobre isso?

Está na moda personagem gay né? Você com certeza já falou ou ouviu isso - pelo bem da humanidade esperamos que você seja o segundo caso. Afinal, sempre foi ~moda~ personagem hétero? Representar verossimilhança do mundo real não é enfiar algo no produto audiovisual. O mundo está cheio de heterossexual, assim como está cheio de homossexual, mas olha que engraçado esses filmes e séries cheio de gente branca e hétero parecendo um comercial de margarina de duas horas completamente moldado e adaptado para uma realidade parcial. Se você se incomoda com o que vê na sua TV porque ela está representando o que existe no mundo a sua volta, existe algo muito errado com você. Se você acha que -estão enfiando algo numa série que já tem demais- quando o personagem é exatamente fiel ao original, só porque ele é gay, tem algo muito errado com você.


[Spoiler]Na HQ Paul Monroe (Jesus) não tem a vida pessoal explorada e só sabemos sobre sua sexualidade quando Alex visita seu quarto em Hilltop reclamando que estava com saudade porque ele havia passado muito tempo fora, na ocasião Jesus passava a maior parte do tempo em Alexandria. Nós vemos ainda especulações entre os personagens a respeito do possível interesse de Aaron em Jesus tempo depois da morte de Eric. Ele é um personagem de extrema relevância que age entre os grupos principais entre a comunidade de Rick e Maggie, atua na guerra contra Negan e contra os sussurradores e sua sexualidade é irrelevante. [/spoiler] Nas palavras de Tom Payne, o ator que faz o personagem, sobre o ultimo episódio The Other Side ao ar em 19/03/2017 “Amei como a série lidou com isso e me toquei que não sei quando foi a última vez em que ele falou sobre isso com alguém. Então, isso mostra um bom relacionamento com Maggie. É uma cena tão pequena. Adorei como naquela pequena cena ele falou sobre viver em um orfanato e sobre seus namorados, revelando tanto sobre si mesmo naquele curto espaço de tempo, o que foi incrível. E, é claro, este é um apocalipse, então é ridículo se preocupar com a sexualidade das pessoas.”


The Walking Dead sempre teve seu casting de personagens heterogêneo e diversificado sem a intenção de entrar nesse debate, só porque existe e pronto. Walkers e apocalipse a parte, isso sempre foi algo realista e verossímil da série. É lindo olhar para uma representação narrativa de entretenimento e enxergar um tom de realidade dentro da sua ficção, enxergar que há uma representação fiel de pessoas que existem no nosso mundo em meio àquele universo narrativo. Com as mesmas pessoas normais que nós vemos na rua a nossa volta todos os dias.

Quantas produções sensacionais, com uma narrativa maravilhosa e profunda são apagadas e caem num debate ridículo sobre ter ultrapassado a cota de personagens gay porque já tem demais? Pense em um filme ou uma série qualquer que você goste, agora pense sobre os personagens e o quão mesquinho é colocar uma cota para a sexualidade dos personagens e deixar de olhar para o que se está contando. Se você não sabe olhar para a TV sem que a sexualidade de um personagem te incomode, você não está pronto para viver em sociedade.

E, se estamos falando de pessoas, pessoas comuns - pessoas - como podemos falar de modismo? Se estamos falando de seres humanos, é muita hipocrisia tratar sua representação com um ~está na moda.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Saber Tanto Quanto o Personagem: Uma Imersão



Eu sempre gostei de estórias bem fechadas com começo, meio e fim. Todas as respostas nas nossas mãos, todos os nós dados, sem pontas soltas e uma coca, por favor moço. Para mim, se você vai contar algo que conte direito, eu era bem chata, não? Bem, essa visão mudou quando eu conheci The Walking Dead.

Você vai falar de The Walking Dead de novo?? / vou sim e se isso for um problema pode clicar ali no X da aba ._.



Muito bem, Rick acorda em um hospital e se vê em um mundo tomado por mortos vivos. Espera. Espera ai tio kirkman, tem algo muito errado nisso, está faltando algo aqui. Aqui ó, você não está me ouvindo né? Ele fatalmente não me ouviu e nunca soube que em sua HQ ficou faltando algumas páginas. Mas o que diabos aconteceu ali?? Como poderia ser normal você dizer que o mundo foi tomado por mortos vivos enquanto uma pessoa estava em coma sem explicar nada e todo mundo aceitar isso?

Mas tudo bem - não estava tudo bem, obviamente mas a vida continua né - a gente parte para os próximos quadrinhos, próximos episódios… Nós não sabemos o que acontece no mundo, sequer temos noticias de qualquer lugar através de artifícios do autor e a sensação de ~que diabos aconteceu naquela fenda temporal te persegue de uma forma bem incomoda.

Mas Fear…. - Não. Já falei sobre isso no outro post, me deixa continuar.

Só que de repente você percebe que esse desespero de não saber o que aconteceu é exatamente o mesmo do personagem e então te atinge em cheio a noção de como isso é genial, justamente o fato de não saber te proporciona os mesmos sentimentos do personagem. O mesmo desespero que ele, a mesma angustia que ele procurando sua família e depois o alivio de encontrar, a mesma confusão naquele mundo bizarramente transformado. Vocês passam pelas mesmas descobertas juntos e a visão de mundo do personagem se torna a sua. Pausa. Veja a genialidade, você entrou na mente dele, os olhos dele se tornaram os seus, a percepção de realidade dele se tornou a sua.

[spoiler] Eu acho que isso já caiu em conhecimento popular mas é bom usar a tag né. Bem, de repente eles descobrem que todos - tipo eu e você - já estão contaminados ou seja lá o que e só precisam morrer para virar walker e pense no quanto isso é desesperador e incrivelmente interessante. A essa altura que diferença faz você achar o paciente zero se não tem como curar as pessoas? Não tem como vacinar se não existe ninguém sem a “doença” para ser vacinado. É tão desalentador e caotico. Eu me lembro daquele momento na HQ da clássica frase “we are the walking dead” quando os personagens são tomados pelo choque de realidade que é de fato conviver com os mortos caminhando ao seu lado, assumindo esse mundo.[/spoiler]

Caminhar ao lado dos personagens - quase literalmente tamanha a sua imersão - até aqui, te proporciona uma sensação muito mais ampla e intensa quanto aos acontecimentos daquele universo. É um sentimento muito mais real e similar ao do personagem do que, se o autor te contasse seus segredos. Ele está te dizendo ~ eu quero que você experimente essas sensações, por isso nunca vou te contar como isso começou da mesma forma que os meus personagens não sabem, quero que você saiba tanto quanto eles e caminhe nesse mundo da mesma forma que eles, explore essa realidade da mesma forma que eles.

Chega a ser sedutor como de repente vira um enigma que não faz mais diferença ser desvendado, pelo menos partes dele, pelo menos para alguns de nós - sobre The Walking Dead, não me importa mais saber se existiu um paciente zero - se torna irrelevante esmiuçar todos os detalhes quando você pode entrar na mente do personagem e deixar fluir sob essa óptica.  

Há outros casos, mas esse foi de longe o mais marcante porque foi o que me fez mudar essa visão. Eu levei isso para minha escrita, porque eu percebi que não saber tudo me leva para dentro da narrativa de uma forma incrivelmente unica então passei a explorar isso convidando o leitor a caminhar ao lado dos meus personagens. Eu comecei a ver tudo de um jeito diferente e nunca mais questionei tanto as pontas soltas, claro depois de xingar - muito - o autor porque ninguém é de ferro né.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Porque The Walking Dead é melhor que Fear The Walking Dead



O medo é um clichê, o fim do mundo é um clichê, estamos acostumados com o fim do mundo e não há nenhuma grande novidade em proteger desesperadamente sua vida de algo desconhecido e assustador, algo tão quase humano no limiar entre um doente e um morto que se confunde com uma pessoa. É natural lutar para sobreviver, é clichê, estamos acostumados a ver milhares de pessoas desesperadas correndo para se salvar.



Fear fala do começo do fim do mundo, mais um começo de mais um fim. Nós (eu) criamos grandes expectativas porque já eramos (sou) fãs de TWD e Fear fala de especialmente um começo de um fim mas não é especial, porque o trataram como mais um e nós esperávamos algo mais. Pontuando aqui apenas questões de momentos narrativos que tiveram ou não sua relevância, muito mais do que analisar a qualidade ou falhas em detalhes, digo que o momento do apocalipse de Fear foi “ok” demais e isso é muito sem graça.



Mas vamos falar de falhas - aquelas sob o meu ponto de vista -  enredo e o fim do mundo especifico de TWD, esse presente em Fear.[spoiler] Fear The Walking Dead se passa durante o coma do Rick, conta como as coisas começaram, conta tudo o que nem nós e nem os personagens que conhecemos não sabiamos. Considerando que, com todo o andamento de The Walking Dead, alguns personagens ainda estavam confusos e desnorteados nessa nova realidade como Hershel acreditando que os *walkers eram apenas pessoas doentes - vamos desconsiderar o fato de ser um idoso que poderia acreditar facilmente em “qualquer coisa”. Outros personagens mesmo depois de tanta convivência hesitavam com a realidade distorcida em que viviam. Nesse contexto tudo era uma grande novidade. Mas Fear que, cronologicamente - dentro da narrativa - viria antes de tudo isso, não respeita vários aspectos: garotos nerds conhecem zumbis, as pessoas conseguem aceitar muito mais fácil que os walkers são apenas mortos, entre outras divergências e incompatibilidades. Não consigo ver um processo coerente de aceitação até chegar ao ponto no qual estão os personagens dentro de TWD, é como se no primeiro episodio de Fear fosse uma surpresa e depois estivesse tudo ok sendo que pra mim, para a série cumprir a promessa de se passar antes da outra essa transição de aceitação deveria ser pelo menos mais lenta. [/spoiler]Fora isso, as questões pós apocalípticas são mais profundas para mim, continue lendo ;)



As verdadeiras questões vem depois do fim, elas se encontram no mundo pós apocalíptico. O apocalipse em si não é importante, não é revelador, não significa grande coisa, ele apenas zera o mundo e é esse mundo pós apocalíptico que revela as pessoas. É a reconstrução, o novo, a busca do que nunca será que realmente importa. Essa é a grande essência de The Walking Dead. A sobrevivência em mundo que não existe mais, com outros como você, tendo que reconstruir a moral e a ética depois que você aprendeu a conviver com *walkers é muito mais complexa e reveladora. É esse cenário que traz a tona a essência de um individuo, seja sozinho ou num grupo; seja ela moral, imoral ou amoral. Quando sobra apenas matar ou morrer e nada mais importa, quando a cura ficou para trás e o verdadeiro inimigo é outro igual a você - não mais um walker. A sociedade deve se reerguer nesse contexto, é nesse cenário que estão as verdadeiras complexidades. É Aqui que a humanidade se relativiza, que o bem e o mal são colocados em xeque.
Sabe aquele lance de ~ se existem tantos planetas será que só tem vida no nosso ~ agora pense em algo do tipo… num planeta tão grande provavelmente há outros grupos, então é assim que se relativiza a verdade: uma visão, muitas verdades, de que lado você está? A resposta é óbvia porque você só conhece uma verdade inteira, mas e se conhecesse todas elas, você ainda escolheria um lado? Você conseguiria ficar de um lado só conhecendo todos eles? Claro que não, por isso é tão complicado. Nós sabemos disso, sabemos que devemos considerar as outras versões mesmo sem conhecê-las só pelo fato de elas existirem, mas não fazemos isso, nós tomamos partido pela versão da verdade que conhecemos e acompanhamos. Porque somos humanos como os personagens e acompanhá-los também nos revela, não é genial?



Talvez você me diga “mas Fear é o comecinho de TWD e talvez te de a oportunidade de acompanhar outra versão de verdade e ….” , é, talvez, mas Fear morreu no clichê. Morreu no mais um fim de mundo em vez de O fim de mundo, o grande apocalipse de TWD. Ficarei com meu mundo pós apocalíptico de sobrevivência e recomeço do que nunca será.



*walker -> eu optei por usar o termo walker (errante) já que em nenhum momento da franquia original é usado o termo “zumbi”