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sábado, 23 de setembro de 2017

Visi(BI)lidade - The Emmy Goes To

*Pode conter spoiler de Black Mirror - San Junipero






Em meio a tantas campanhas importantes, eu vi a necessidade de falar sobre algo apagado e muito relevante. Muita gente não sabe, mas setembro também é o mês da visibilidade bissexual, embora seja pouco divulgado e acabe ofuscado por tantas outras campanhas como o Setembro Amarelo que combate o suicídio e a depressão. Mas o B da sigla LGBT+, não é Bolacha (nem Biscoito se você for carioca, a gente respeita todas as origens aqui), é bissexual mesmo - sim, bissexuais existem, eu juro - e sofre um apagamento e uma discriminação dentro e fora da comunidade LGBT+ sendo consideradas pessoas indecisas entre outros no leque da bifobia. A bissexualidade ainda é pouco representada tanto nas campanhas de conscientização, promoção de informação, contra discriminação e nas mídias e entretenimento. Esse último um espaço importantíssimo para chegar até as pessoas um retrato, se não fiel, ao menos verossímil em relação a diversidade existente na vida real e causar uma reflexão acerca da sociedade mostrando que esse leque de possibilidades existe sim.




Um exemplo de como isso é ofuscado em meio a tantas outras informações é a própria história: em 1999 três ativistas dos direitos bissexuais dos Estados Unidos: Wendy Curry do Maine, Michael Page da Flórida, e Gigi Raven Wilbur do Texas escolheram o dia 23 de setembro para celebrar a bissexualidade e fazer com que essa parcela da sociedade muitas vezes esquecida pelos debates fosse notada. Embora verídico, eu encontrei apenas isso em uma pesquisa longa com a intenção de trazer dados, mêses atrás quando pesquisei sobre a visibilidade LGBT+ de uma forma geral eu achei dados muito mais completos. Nós esbarramos em uma divulgação ainda pequena nos dias atuais. Essa data foi criada em resposta à marginalização que as pessoas bissexuais sofrem dentro e fora da comunidade LGBT+ convidando a discutir e combater a bifobia presente na sociedade, ainda que velada e camuflada em outras formas de se manifestar.

bis·se·xu·a·li·da·de |cs|
substantivo femininoQualidade de bissexual.
Palavras relacionadas: bifobia, bissexual, bifóbico
bis·se·xu·al |cs|
adjetivo de dois gêneros 
1. [Botânica]  Diz-se da flor que reúne os dois sexos. 
2. Hermafrodita. 
3. Relativo à bissexualidade.adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros 
4. Que ou quem tem atração ou interesse sexual pelos dois sexos.(https://www.priberam.pt)


A diversidade sexual já ganhou muito espaço  no meio do entretenimento e aumentou significativamente sua representação, mesmo longe de uma dimensão e construção ideais. Porém a expressão da bissexualidade na mídia ainda deixa a desejar. Segundo dados da GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, uma organização não governamental com o objetivo de monitorar a forma com que a mídia retrata pessoas LGBT+, fundada em 1985 em NY para responder a cobertura sensacionalista de uma epidemia de AIDS - , o número de personagens bissexuais aumentou e as mulheres estão mais representadas. Mas isso passa uma idéia errada de que elas são mais aceitas quando, na verdade, algumas ainda estão sendo fetichizadas e sexualizadas pelos meios de comunicação para satisfazer um desejo machista da nossa cultura. Muitos personagens ainda são retratados dentro de estereótipos da bifobia e precisam desconstruir esses (pré)conceitos tanto na mídia quanto na visão das pessoas.

Alguns personagens no entanto são colocados de uma forma muito coerente e verdadeira dentro da narrativa, trazendo para o espectador um momento de reflexão sobre a realidade.Em meio a esse contexto, no domingo (dia 17 de setembro) o Emmy premiou os melhores programas de televisão do horário nobre dos Estados Unidos - de acordo com a escolha da Academia de Artes e Ciências da Televisão. Entre as escolhas campeãs desse ano está “San Junipero”, o quarto episódio da terceira temporada de Black Mirror, vencedor na categoria melhor filme feito para a TV e também como melhor roteiro em minissérie. A série é conhecida por expor o pior lado do ser humano com uma narrativa trazendo um futuro relacionado diretamente ao uso da tecnologia, além dos já habituais finais trágicos que fazem o espectador refletir sobre a forma com que leva a vida. Porém San Junipero se destaca nesse sentido por acabar de forma surpreendentemente bem, embora ainda cause um desconforto a respeito dos temas abordados - vida e morte.





San Junipero é uma cidade simulada para abrigar as pessoas em sua pós morte, muitas delas vivem uma experiência ainda em vida para saber se querem morar ali ou não. Yorkie e Kelly se conhecem em um bar local, aparentemente na década de 80 e vivem uma tensão sexual até se conhecerem melhor e se entregarem a essa paixão assumindo o que há entre elas. Yorkie revela que é sua primeira vez com alguém, seja homem ou mulher, já Kelly é bissexual e já foi casada por um bom tempo. Entretanto, elas só ficam juntas após Yorkie procurá-la através do tempo em San Junipero, em épocas diferentes, até conseguir encontrar Kelly, conquistar sua confiança e ambas trocarem histórias sobre si. Kelly confessa que está morrendo na realidade e não tinha qualquer intenção de estabelecer uma ligação genuina com outra pessoa dentro da simulação, já Yorkie é uma mulher que vive paralisada há mais de 40 anos, ocasião em que seus pais a rejeitaram por ser lésbica e ela bateu o carro num acidente.

O roteiro apresenta personagens lésbica e bissexual complexas e bem desenvolvidas, ambas realidades com histórias de luta geralmente apagadas dentro e fora da ficção. Além disso traz uma reflexão densa a respeito da vida e morte; e a forma como lidamos com isso fazendo com que o espectador pense a respeito de suas atitudes levando-o a valorizar mais aquilo que tem ao seu alcance.


Black Mirror é conhecido por tocar em feridas ao falar de forma pesada sobre assuntos delicados revelando facetas do ser humanos, esse episódio traz - entre possibilidades - uma alternativa na qual os personagens podem ser felizes, ou é isso o que nós queremos acreditar ao assistir. Entre poucas representações e entre tantas delas problemáticas, San Junipero apresenta uma situação delicada e profunda levando dois merecidos Emmys.

terça-feira, 21 de março de 2017

Mas Homofobia Não Existe





Oi, vamos falar sobre homofobia? Ah, mas homofobia não existe, olha só quanta diversidade nos filmes, séries, novelas, já estão enfiando homossexualidade em tudo hoje em dia. É, e foi justamente isso que eu li hoje, que “estão enfiando homossexualidade em tudo” e não precisa de ~mais um personagem gay porque já tinha um casal homossexual, em The Walking Dead no caso~ então vamos falar sobre isso?

Está na moda personagem gay né? Você com certeza já falou ou ouviu isso - pelo bem da humanidade esperamos que você seja o segundo caso. Afinal, sempre foi ~moda~ personagem hétero? Representar verossimilhança do mundo real não é enfiar algo no produto audiovisual. O mundo está cheio de heterossexual, assim como está cheio de homossexual, mas olha que engraçado esses filmes e séries cheio de gente branca e hétero parecendo um comercial de margarina de duas horas completamente moldado e adaptado para uma realidade parcial. Se você se incomoda com o que vê na sua TV porque ela está representando o que existe no mundo a sua volta, existe algo muito errado com você. Se você acha que -estão enfiando algo numa série que já tem demais- quando o personagem é exatamente fiel ao original, só porque ele é gay, tem algo muito errado com você.


[Spoiler]Na HQ Paul Monroe (Jesus) não tem a vida pessoal explorada e só sabemos sobre sua sexualidade quando Alex visita seu quarto em Hilltop reclamando que estava com saudade porque ele havia passado muito tempo fora, na ocasião Jesus passava a maior parte do tempo em Alexandria. Nós vemos ainda especulações entre os personagens a respeito do possível interesse de Aaron em Jesus tempo depois da morte de Eric. Ele é um personagem de extrema relevância que age entre os grupos principais entre a comunidade de Rick e Maggie, atua na guerra contra Negan e contra os sussurradores e sua sexualidade é irrelevante. [/spoiler] Nas palavras de Tom Payne, o ator que faz o personagem, sobre o ultimo episódio The Other Side ao ar em 19/03/2017 “Amei como a série lidou com isso e me toquei que não sei quando foi a última vez em que ele falou sobre isso com alguém. Então, isso mostra um bom relacionamento com Maggie. É uma cena tão pequena. Adorei como naquela pequena cena ele falou sobre viver em um orfanato e sobre seus namorados, revelando tanto sobre si mesmo naquele curto espaço de tempo, o que foi incrível. E, é claro, este é um apocalipse, então é ridículo se preocupar com a sexualidade das pessoas.”


The Walking Dead sempre teve seu casting de personagens heterogêneo e diversificado sem a intenção de entrar nesse debate, só porque existe e pronto. Walkers e apocalipse a parte, isso sempre foi algo realista e verossímil da série. É lindo olhar para uma representação narrativa de entretenimento e enxergar um tom de realidade dentro da sua ficção, enxergar que há uma representação fiel de pessoas que existem no nosso mundo em meio àquele universo narrativo. Com as mesmas pessoas normais que nós vemos na rua a nossa volta todos os dias.

Quantas produções sensacionais, com uma narrativa maravilhosa e profunda são apagadas e caem num debate ridículo sobre ter ultrapassado a cota de personagens gay porque já tem demais? Pense em um filme ou uma série qualquer que você goste, agora pense sobre os personagens e o quão mesquinho é colocar uma cota para a sexualidade dos personagens e deixar de olhar para o que se está contando. Se você não sabe olhar para a TV sem que a sexualidade de um personagem te incomode, você não está pronto para viver em sociedade.

E, se estamos falando de pessoas, pessoas comuns - pessoas - como podemos falar de modismo? Se estamos falando de seres humanos, é muita hipocrisia tratar sua representação com um ~está na moda.