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Siga o coelho e entre na toca, Aqui você vai encontrar textos sobre várias coisas te convidando a refletir. Mas lembre-se, eles foram escritos por alguém e expressam uma opinião, não uma verdade, você pode discordar ou não. * Spoilers estão identificados e ocultos, para ler selecione o trecho.

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sábado, 3 de junho de 2017

Nós Precisamos Falar Sobre Sense8



Existem coisas na vida que não trabalham com meio termo e despertam amor ou ódio nas pessoas, ainda que uma boa parcela desses grupos deixe se levar pelos motivos errados - é muito triste, se não trágico como tanta gente reduz Sense8 a sexo. Convenhamos, grande parte dessa aversão é responsabilidade - sim, não quero usar culpa aqui - do próprio fandom quando ele se divide em brigas particulares e internas passando uma imagem completamente errada e imatura sobre algo que deveria ensinar sobre ser humano - ou milhares de outras mensagens igualmente importantes, em tantos outros casos. Tudo bem, se nem Deus tem um fandom perfeito quem dirá uma simples série? Mas não estamos falando de uma simples série. Nós precisamos falar sobre Sense8.  ~ Mas você vai falar só sobre Sense8? // Vou // Só sobre Sense8? // Vou // Mas já tem tanta gente falando // Você pode clicar no X ali em cima ~

A verdade é que grande parte de quem ama ou odeia, ama ou odeia Sense8 exclusivamente por causa das cenas de sexo (oi, vamos falar sobre as nossas novelas super moralistas?). Mas hipocrisias a parte, todo grupo de pessoas tem um subgrupo que distorce as ideias desse grupo e são exatamente essas ideias erradas que as pessoas de fora vão colocar uma lupa e usar para julgar as coisas, na maioria das vezes sem conhecer - sim, as pessoas fazem isso, eu sinto muito. Se você ama Sense8 por causa das clássicas cenas de suruba ou se você odeia Sense8 por causa das clássicas cenas de suruba, nós temos algumas opções: você assistiu errado, assiste de novo; você nunca assistiu e julgou sem conhecer, vai assistir e formar sua opinião; fim. Se você gosta ou não por qualquer outro motivo, parabéns por não se comportar como uma criança olhando para o livro de biologia. ~ Apesar da classificação indicativa, grande parte do público não entendeu essas cenas de sexo e tratava elas como uma criança de treze anos na aula de biologia, sinto muito por isso Lilly e Lana Wachowski.


Sense8 é antes de tudo sobre ser humano e trata a diversidade como um mecanismo natural da evolução, a diversidade em seu conceito mais puro e amplo: a conexão humana. Como falar em ser humano como verbo sem falar em sexualidade, machismo, racismo, intolerância religiosa, desigualdade social, preconceito, coragem, amor, família, amizade, união, solidariedade... ? A complexidade que conecta as pessoas é muito maior e mais profunda do que isso e, como falar sobre conexão humana sem desconstruir tudo o que já conhecemos e repensar todos os conceitos do mundo? Porque não existe conexão humana se primeiro você não se despir de todos os rótulos que o mundo te ensinou até hoje e olhar para as pessoas a sua volta da forma mais pura que existe, para enxergar sua alma e seus sentimentos, seus pensamentos e suas necessidades - para enxergar outro ser humano como você. Sense8 ensina a repensar tudo o que já aprendemos até hoje sob outra perspectiva a partir do momento em que coloca a relação com o outro como um aspecto da evolução. O que poderia ser mais profundo do que olhar para uma pessoa como outro ser humano?

Mais que isso, é sobre empatia. E você não precisa ser homem, mulher, feminista ou gay para se identificar com a pessoa ao seu lado, só precisa ser humano para ter empatia.

Enquanto estivermos juntos, eu sei que não tem nada que não podemos fazer

Sense8 era uma série ousada em muitos sentidos, tanto conceitual quanto executivo. Você não pode falar para as pessoas reformatarem seu HD interno e redefinirem seus conceitos esperando que fique tudo bem, também não pode gastar nove milhões por episódio e esperar que fique tudo bem. Como toda grande ousadia tem seus riscos, Sense8 encontrou seu fim precoce. Mas também deixou todo um legado e seu fandom é o maior cluster do mundo que vai passar adiante cada mensagem.

sábado, 24 de outubro de 2015

A Culpa é Sua Sim



Esse post surgiu de uma forma muito aleatória mas preocupante. Eu fui em um grupo do Facebook divulgar uma estória que estou escrevendo e primeiro fiquei frustrada ao perceber que as pessoas procuram muito mais por romances e hots e a minha tinha um foco completamente diferente. Bom, gosto é gosto. Então continuei passando pelas postagens e vi uma divulgação que me chamou atenção, eu encontrei algo realmente problemático e preocupante. Era um trecho, ou sinopse (eu não me lembro, e não importa realmente) que claramente indicava uma agressão e deixava claro que era uma relação consentida. Veja, eu não quero julgar quem fez isso, eu não peguei para ler e não tenho o menor interesse, o problema é existir  interesse, o problema é a romantização do abuso. Pouco importa como surgiu aquela relação ou que rumo ela ia tomar. Eu sei que eu estava dentro de um grupo do Facebook com uma parcela estatisticamente pequena para analise mas isso não deveria acontecer porque é uma carta branca dizendo que o assédio está liberado, é velado e quase sutil mas assustadoramente real.

Então, vamos falar sobre isso? A vida imita a arte, isso é tão verdade, mas tão verdade. A mente doente de quem diz que uma mulher e até uma criança pede para ser assediada de acordo com suas roupas tem um senso de realidade tão distorcido que ver as pessoas apreciando e romantizando o abuso é quase - se não for exatamente - um convite para a própria prática. Isso não é engraçado, não é legal e ~ o mais doentio ~ não é romântico.

Nós temos um discernimento muito bom de certo e errado, nós fazemos campanhas, damos apoios, incentivos, ensinamos, denunciamos, na vida real é tudo muito bonito ( ou não, óbvio). Mas a família tradicional brasileira, aquela do comercial de margarina que nosso legislativo defende, tem uma noção bem esquisita desse certo e errado quando apoia o que a televisão ensina, quando vê um romance bizarro onde claramente não deveria existir. Não é na ficção que está o problema, mas quando esse público apoia o assedio em vez de criticá-lo ele está dizendo sim; quando esse mesmo público critica o assédio real o agressor debocha na sua cara. 


Quando você diz “criança viada”, quando você pede nudes de uma menina de doze anos, então eu diria que você chegou no auge do absurdo. É assustador como a forma com que o ser humano está lidando com criança revela a nossa sociedade e isso é uma coisa incrível da combinação entre internet e seres humanos: eu não preciso assistir MasterChef Junior para chegar até mim a catástrofe que virou os comentários absurdos sobre essas crianças - crianças. O fato de estar atrás de uma tela confere ao ser humano uma capa da invisibilidade das mais chocantes possíveis, ele se revela para o mundo como se ninguém pudesse vê-lo, mas sabemos que ele está ali e que aquilo é exatamente o que ele é quando desliga o computador e vai viver sua vida. Nós não concordamos, nós nos horrorizamos, mas acredite, alimentamos essa sociedade assim.





Um spoiler sobre a vida: se você acha que estou culpando a vitima, você é burro e não entendeu nada. Eu culpo a nossa sociedade, a nossa cultura sim.
Se você faz piada com assédio, estupro, racismo, homofóbicas, machistas, com pedofilia, com campanhas que visam apoio a pessoas que sofreram algum tipo de assédio, se você romantiza o assédio - sim, a culpa pela nossa sociedade ser assim também é sua.

Desculpa McFly, não era esse o futuro que você deveria encontrar.